05/09/2025 às 17:38 Psicanálise

Gaslighting médico: quando a medicina desacredita a sua dor e como a psicanálise nasceu para romper esse silêncio

87
4min de leitura

Por Karine Riboli |

Você já saiu de um consultório médico sentindo que sua dor foi ignorada? Que seu corpo, seu sofrimento, foram reduzidos a um “problema emocional” ou, pior, a algo que simplesmente não existe?

Isso não é um acidente, mas um sintoma estrutural. O que chamamos de gaslighting médico é a negação brutal da experiência subjetiva do sofrimento, o médico que desacredita, que transforma sua dor em dúvida, que apaga sua voz.

Freud já afirmava que é pela palavra que o paciente pode transferir seu sofrimento e buscar sua transformação, pois onde a palavra falta, o sofrimento se faz silêncio opressivo. Mas e quando essa palavra é recebida com silêncio, desdém, dúvida?

Parafraseando Lacan, o sujeito só se constitui e se reconhece no desejo do Outro; é no reconhecimento desse olhar que ele se afirma como existência. Negar esse reconhecimento configura uma forma de violência contra o sujeito, lançando-o no vazio do não-ser.

No final do século XIX, mulheres diagnosticadas como histéricas foram vítimas emblemáticas desse apagamento. Suas dores reais eram tratadas como fingimento, seus corpos negados sob o peso de um saber médico que se recusava a admitir o incompreensível.

Foi justamente contra essa lógica que a psicanálise se ergueu, rompendo o silêncio ao ousar escutar onde só havia desdém, atribuindo voz às mulheres e instituindo a associação livre como resistência contra esse silêncio que grita.

No século XXI, essa violência persiste, mas ganha contornos mais sutis e por vezes revestidos de indiferença. Pesquisas revelam que mais de 94% das pessoas relataram sentir que seus sintomas foram ignorados ou desacreditados por um médico. Esse número não é mera estatística: é a reverberação de um pacto simbólico rompido entre médico e paciente, um acordo implícito de escuta e reconhecimento que, quando quebrado, ressoa dolorosamente no corpo e na psique, especialmente quando o silêncio do médico fala mais alto que a voz do paciente.

Você já percebeu como, às vezes, sua dor é minimizada, rotulada como “coisa da cabeça”, ignorada mesmo diante da insistência? Como se, para ser levado a sério, fosse necessário carregar o fardo da dúvida sobre si mesmo, a obrigação de provar uma dor que escapa à lógica?

O silêncio do médico, o olhar que desvia, o gesto que interrompe sua narrativa, tudo isso ressoa como um apagamento, uma exclusão simbólica. Sair do consultório e sentir que perdeu a própria voz, que o corpo que fala virou um enigma impossível, é o sinal mais cruel desse mecanismo.

No consultório, o médico ocupa o lugar do sujeito-suposto-saber, aquele a quem confiamos não apenas nosso corpo, mas a verdade sobre ele. Quando o Outro nega nossa narrativa, rompe-se a sustentação simbólica que permite ao sujeito existir. A dor deixa de ser apenas física para transformar-se em um vazio corrosivo do ser.

Você, que talvez já tenha sentido o peso dessa invalidação, sabe que ela não é mera frustração. É uma ferida narcísica profunda que, questiona a própria existência do sujeito. (Freud, 1914)

Mas na clínica psicanalítica esse vazio pode ser enfrentado e atravessado.

Ali, onde a medicina tradicional falha por buscar respostas objetivas e prontas, encontra-se o acolhimento da singularidade do sofrimento, uma escuta que não tenta preencher o vazio com explicações fáceis, mas que se deixa atravessar pelo relato do sujeito.

A associação livre, esse ato inaugural fundante da psicanálise, permite que o analisante se aproprie de sua palavra, reencontre seu lugar no discurso e redescubra seu desejo.

É neste encontro que o silêncio opressor pode ser rompido e a dor encontra sentido, não pela eliminação do sintoma, mas pela ressignificação da experiência subjetiva.

A psicanálise oferece um espaço ético e simbólico onde a verdade do sujeito não é negada ou diminuída, onde o silêncio se torna fala e o apagamento se transforma em reconhecimento.

Quando a medicina silencia a dor, quebra-se um pacto fundamental, aquele que deveria garantir cuidado, respeito e reconhecimento. A psicanálise nasce para ocupar esse vazio, para restituir a escuta, a palavra e, sobretudo, o sujeito.

E você? Já passou por essa invalidação? Conte-nos o seu relato, ele pode ajudar outras pessoas a entender que não estão sozinhas.

Se hoje você fosse verdadeiramente ouvido(a), que verdade sua dor teria coragem de revelar?

Referências

  • Freud, S., & Breuer, J. (1895). Estudos sobre a Histeria.
  • Freud, S. (1914). Introdução ao Narcisismo.
  • Lacan, J. (1966). Escritos.
  •  ECRI. Medical gaslighting tops list of highest patient safety risks (2025), com base em pesquisa de 2023. Association of Health Care Journalists

Conheça mais sobre a Karine em seu site www.clinicariboli.com.br e Instagram @psikarineriboli

05 Set 2025

Gaslighting médico: quando a medicina desacredita a sua dor e como a psicanálise nasceu para romper esse silêncio

Comentar
Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
Copiar URL

Quem viu também curtiu

10 de Out de 2025

Psicanálise Subversiva ou Mercantilizada? Freud e a Cultura Atual

19 de Jun de 2025

O sujeito atravessado pela história: uma leitura geracional na psicanálise

24 de Jul de 2025

Sublimação como artifício de sustentação da coesão cultural do sujeito

Olá! Como podemos te ajudar hoje? Se preferir um contato mais direto, nos chame no WhatsApp
Logo do Whatsapp